Pornôklastia: uma releitura do Eros platônico

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por Sue Nhamandu

As doutrinas não escritas são breves proposições de altíssima importância cuja impressão na alma se dá de forma oral e não escrita como é possível ler na Carta VII, bem como em sugestões em meio alguns diálogos. A ética do cuidado de si além do subtítulo do terceiro e tecnicamente último volume de História da sexualidade de Foucault- dado que o mesmo deixou expresso em seu testamento que não desejava a publicação de seus escritos inacabados; o que me leva devanear Mallarmé no leito de morte colocando fogo em seus escritos-, mas é também nome de publicação anterior e famosa entrevista do autor, onde Michel Foucault inicia citando As palavras e as coisas. Perceberá justamente que a sexualidade esbarra o tempo todo no conceito de mesmo e outro bem como no de duplo empírico transcendental, aonde cheguei investigando a fenomenologia da imaginação dos duplos em Artaud, pesquisa que ainda pretendo vir a publicar. Bem, num percurso foucaultiano também aqui estamos no discurso do sexo, e também nos propomos passar pelos gregos, claro que a princípio na pesquisa e não eternamente, dado que o futuro dela- a pesquisa da Pornôklastia como ética do cuidado de si- são as plantas como ancestrais dos humanos na terra e o tecnoxamanismo- o ancestrofuturismo e as dinâmicas de grupo das tribos pré colonizador o encobridor pra usar o termo de Dusserl ainda vivas e seus conceitos sexualidade e amor, passando pela sexualidade mutante ou cyborg da pós pornografia hispano latino americana que tem início com as americanas especialmente Annei Sprinkle La Mamma. Parto do princípio que o discurso de sexo é a pornografia e a pedagógica iconoclástica[1] do pornô, que nasce do feminismo pró-sexo de Annie e Harriot, e chega no Pornoterrorismo de Diana e Leonor. Pornôklastia portanto é um conceito em invenção que engendra uma pedagógica uma prática , uma teórica, uma face performática[2] e uma reticular.

Mas pretendemos por ora neste texto percorrer um caminho de compreender o conceito de ética de si para Foucault, seu retorno aos gregos, no caso dele os estóicos e os epicuristas mais fortemente, mas nessa entrevista ele cita Platão também algumas vezes, e justamente o Platão das doutrinas não escritas, seu eros que queremos acessar, para isso passaremos pelo conceito de paradigma e estrutura da revolução científica de Kuhn, e o conceito de Principio Primeiro de Platão.

Existe um movimento interno na obra de Foucault entre 1979 e 1984- vale lembrar que entre 1974 e 1975 o mesmo desenvolve uma pequena genealogia  dos dispositivos de sexualidade que geram a produção de corpos femininos[3]- nos cursos que ele aplicava no Collége de France que é uma entidade de pesquisa ela passa das analises da governamentalidade do Estado para a analise da governamentalidade de si como é possível ver o resultado em livro dessas pesquisas nas Histórias da Sexualidade I II e III e na Hermenêutica do Sujeito.

O movimento é: da arqueologia do poder disciplinar, e estudo da biopolítica para investigação de si e práticas éticas de resistência. Desviando a noção de saber-poder para manifestação do governo pela verdade- uma prática de governo de si-, não a alethéia mas a aliturgia,  a verdade se organiza como algo que se sedimenta pelos exercícios de poder. Cuidar de si analisado em A hermenêutica do sujeito em três momentos:  cuidar para governar os outros, platônico; o cuidar de si cristão para se salvar e ganhar o reino dos céus; e o cuidar de si dos cínicos, dos estoicos, epicurista e helenístico romano como um fim em si mesmo. Filosofa no contexto epicurista é um cuidar de si.

No final da vida Foucault está engajado no estudo da filosofia antiga,  a coragem da verdade a ética grega  helenística, e o estoicos romanos especialmente Sênica, Epicuro, Epiteto e Marco Aurélio que são filósofos que permeiam de forma significativa A hermenêutica do sujeito. Cuidado de si aparentemente é uma resistência ao estudo que Foucault fez ao biopoder no seu pensamento, parece que na relação do cuidado de si Foucault vai buscar formas de resistência contra a governamentalidade e a sociedade. Em 1982 Foucault não tenta transferir a ética grega e romana para a contemporaneidade, é ação teórico pratico associado com o máximo de auto gestão é uma arqueologia; busca  o diálogo com o arché da relação consigo próprio são para ele a base da revolução contemporânea contra a governamentalidade social através da prática do cuidado de si como governamentalidade do sujeito estética e ética.

  Ética como estética da existência está estreitamente vinculado ao conceito de cuidado de si : tomada de posição ativa com relação ao poder. o tema da resistência é reincidente, mas uma coisa é dizer que todo exercício do poder implica em resistência; outra é dizer que a ética do cuidado de si significa a produção de práticas de liberdade. Ou seja, nossas relações com o estão vinculadas com o poder. O cuidado e a ética de si para Foucault como é possível ler o resumo do curso Subjetividade e verdade é uma forma de produzir a subjetividade, através de empreendimento em si mesmo, em sua técnica e saber, ou seja, na construção de nosso plano de imanência. Mas não através do alargamento da célula de localização  identificação do que não-é, mas na relação íntima da tomada da governamentalidade de si no convívio social  como modelo de vida, modelos de conduta e pedagogia.

Meu projeto a longo prazo nessa escrita como tecnologia de invenção de subjetividade de um personagem biopolítico não é ficar explicando Foucault como um papagaio de saia numa reprodução infinita, mas lentamente sem pretenção numa metáfora é inventar um Catatau Fazer Foucault beber a Jurema Tupinambouts e passar por uma transição M2Tigreza nanotecnológica e ejacular em performance depois de siririca dildo-tectônica. Mas antes queremos passar por um Platão que Foucault não percorreu esse do paradigma Reale-Tunbingen. Porque? Primeiro porque é minha máquina desejante e a pesquisa filosófica dos sujeitos falantes não é menos arbitrária que a pesquisa científica nem tão pouco imparcial. Segundo porque o acaso é de fato um fenômeno inefável que mereceu enorme atenção de Duchamp e dos surrealista e eu não quis ignorá-lo, depois porque novas interpretações paradigmáticas são interessantes sobretudo quando elas inserem o conceito de philia na base de um Eros sinto que as afecciones alegres têm algo a ganhar com essa empreitada. E por fim porque embora Platão não tenha escrito uma estática, sua metafísica é toda ela uma estética, ouso afirmar que o Duplo metafísico artaudiano se apoia nessa díade estética numa fenomenologia da imaginação ainda em desenvolvimento.

A analise das relações de poder está intimamente ligada com as práticas de liberdade é fundamental todavia distinguir que Foucault dizer que há um conjunto de relações de poder que podem ou não se exercer entre os sujeitos falantes numa relação de amizade, de trabalho, sexual, de família, pedagógica que operam sobre os corpos desses personagens biopolíticos não é dizer que tudo é poder. E não vamos entrar agora na inaptidão de Foucault , ou talvez na sua falta de tempo pela CIDA de avaliar a condição do subjugado pela ótica da mulher, mas deixo essa critica para mais adiante, dado que este momento já um grande número de conceitos está sendo abarcado.

Na análise a cristalização e o bloqueio das relações de poder não permite aos parceiros novas estratégias, para Foucault seria portanto a inflexibilidade das relações de poder, e não a existência delas, primeiro problema que se coloca numa ética do cuidado de si; entendo que a compreensão da dimensão do discurso e das operações de poder entre as palavras e as coisas é uma condição prévia para o entendimento nas relações de poder na sexualidade e relações de amor. Incluindo, inclusive, a liberdade financeira que certamente influi no grau de liberdade dos particulares. Um segundo momento é entender que estar e saber-se conscientemente liberado é uma condição para prática de liberdade. A preocupação mais intensa de M Foucault aparentemente é o problema ético da  prática de liberdade. Afinal Como? Como praticar a liberdade?  Uma micropolítica do sujeito talvez parece é um apontamento que a professora chilena Maria Cecília Colombani vê na obra do autor. Ela fala de um surgimento de um sujeito-de-desejo na obra foucaultiana. Deleuze comenta em 77 em carta enviada a Foucault que o segundo não tolera a palavra desejo, pois via como falta ou reprimido,e aquilo que Foucault denomina prazer é similar com o que Deleuze denomina desejo, mas pra Deleuze desejo é produção, enfim uma distinção verbal a princípio. Mas a ética do cuidado de si permite o transito da obra foucautiana no prefácio do anti-Édipo para o inglês notamos que Foucault o vê como um livro de ética, um estilo de pensar e viver se livrando do fascismo em nossos corações e prazeres, Guatarri e Deleuze liberam o fascismo do corpo, é na cultura do cuidado de si, que Foucault começa buscando na antiguidade que as práticas de liberdade vão incitar a obra foucaultiana a criação de um corpo não-fascista. Eu sugiro um corpo pornôklasta uma sugestão de linha de fuga de uma macaca kafkiana pós dildo-tectonica, estamos antropofagiando tudo.

10§ Se os estoicos possuem uma física materialista e veem o logos como manifestação da harmonia do cosmos nos humanos; os epicuristas uma física atómista de Demócritos, e os platônicos se engajam aos Princípios Primeiros- apesar de nos diálogos a operação do logos ser A   Teoria das  idéias sustenta o discurso, enquanto o discurso valida a teoria das idéias.- em comum o homem grego ocupa-se de si. O cuidado de si e como o uno gera os multíplos são as preocupações filosóficas por excelência do homem grego. O cuidado de si na antiguidade grega é o exercício de conhecer-se  opera  uma dimensão ética, é uma prática racional da liberdade. Para o homem grego liberdade é a não-escravidão, é um domínio político  pois significa não ser escravo inclusive de si. O arché portanto implica uma relação de domínio dos apetites. O cuidado de si é ontologicamente anterior na ética pois só aquele que bem se cuida cuida bem do cuidado do  outro. O poder sobre si é o que nos impede de portar-nos como tiranos. Essa dimensão do cuidado de si não é portanto narcizíca de amor exagerado que faz negligenciar o outro. É só durante o cristianismo que a moral passa a ser o único cuidado de si como bem nota Nietzsche em Genealogia da Moral.

11§ No Fédon Sócrates se encontra em seu leito e morte se preocupa que paguem a galinha que ele deve, a dimensão do vivido, da experiência do vivido. Na entrevista do Foucault ele vai seguir para a questão dos jogos de verdade, ou seja a questão da linguagem. Todavia ele retorna a questão socrática dentro de uma perspectiva pedagógica retornando ao personagem de Alcibíades. Creio que a grande conquista do conceito de eros platônico na atualidade é a dimensão as philia. A luz das doutrinas não escritas a maquina desejante só amor é o Bem. O desejo a pulsão motora da philia que se encontra na busca do princípio primeiro e supremo do Bem. Ou seja a busca pelo bem origina a amizade e é o verdadeiro arché do amor isso é o Bme supremo e a função de todos os que amam todo e qualquer particular. Ora quais as implicações disso para uma ética do cuidado de si?


[1] Criei este neologismo pornôklastia numa inspiração duchampiniana.
[2] Que é tão estética quanto metafísica num sentido muito singular que pretendemos explicar mais adiante
[3] Preciado, Paul B. Manifesto Contrassexual. Pág 90.
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