Por um passeio na loucura

- por Junior Bonfá// 

Quisera eu antepor na vida um modelo único e dado. Bastaria tão somente existir, fosse a vida assim harmônica e métrica. A existência, porém, é aporia por excelência - e não há quem possa dizê-la não ser. 

Alguns pensadores nos convidam a trata-la por ângulos mais densos, partindo da noção monista de que tudo o que existe nada mais é do que a mesma matéria - uma substancia única a qual todos somos modos, como diria Espinoza. Tal noção permite olharmos o mundo a partir de um vínculo familiar, de pertencimento, e por esta ordem, nos consente reconciliar com a natureza, e ver o belo imanente em sua transformação constante. 

Mas como faze-lo? Como existir em harmonia plena com o meio, uma vez que estamos inseridos, sobretudo no ocidente, em uma sociedade extremamente ambiciosa e competitiva? Que visa, acima de tudo, o lucro pessoal? Que faz de si mesma moeda de troca? Que destrói tudo o que há, inclusive a natureza, em prol do poder e quantias monetárias? Esta é, em primazia, uma questão de prioridade existencial. Prática ética para com a própria existência. E quem prioriza, nesta ótica, fazer jus no jogo do capital, não consegue, nem de longe, existir em harmonia com o meio. Quem consegue? E como? Você pode me questionar. Para o deslumbre de muitos, e o frio assombro de outros, trago aqui, a partir de alguns pensadores, que os loucos, socialmente desajustados, desviantes da ordem, tem muito à nos ensinar em relação a sensibilidade da vida. Aliás, em uma sociedade extremamente normativa e de adequação, qualquer desvio se faz doença. Mas quem pode assim julgar o que é normal ou patológico, se não o próprio sujeito? Bem nos mostrou Canguilhem. 

"De vez em quando é alegre enlouquecer", diziam, corriqueiramente, os poetas gregos. Deleuze nos mostrou que a beleza dos seres humanos esta nos traços de loucura. Inclusive, no "O Anti-Édipo", ao falar sobre o passeio do Lenz (esquizofrênico) relata : "Ele achava que deveria ser uma sensação de infinita felicidade ser tocado assim pela vida primitiva de toda a espécie, ter sensibilidade para as rochas, os metais, para a água e as plantas, captar em si mesmo, como num sonho, toda criatura da natureza, da mesma maneira como as flores absorvem o ar com o crescer e o minguar da lua." Mesmo os dualistas, que sempre afirmaram a existência de dois mundos; o do corpo e o da alma, e sendo o ultimo o melhor, ainda assim, dando pouco valor a existência terrena, souberam apreciar a loucura em sua manifestação imamente no mundo material. Aristóteles alertara não haver grandes gênios sem uma mistura de loucura. Platão também, em pensamento semelhante, ao fazer referencia aos poetas e suas musas inspiradoras, afirmou: "Em vão se dirige às portas das musas quem tem o domínio de si". 
Eu poderia continuar citando enunciados desses grandes pensadores da chapa branca da filosofia, tão somente para evidenciar que nem sempre, e nem por todos, a loucura foi estigmatizada em sua totalidade pelo viés negativo. 

 Deve-se ficar claro, faço questão, que este texto não se propõe à um movimento pró-loucura, mas trazer a tona - para muitos em forma de ferida narcísica -, que nossa sociedade, produto e produtora do capitalismo, esta se distanciando em grande escala da busca pela harmonia da existência. 

Queria eu viver num meio, que em contraposição a lógica do mercado cruel, globalizado, afirmasse a existência através do que os Estoicos nos ensinaram, do que Nietzsche nos mostrou sobre o Eterno-Retorno e o Amor-Fati, da Ética de Espinoza. Conseguem imaginar? Deixo aqui o apelo por uma existência voltada às questões do homem, do socius, do ser, e não do capital. Por passeios como o do Lenz. Pela contemplação da natureza; do belo; DA VIDA
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