Considerações sobre o trágico em Nietzsche: “um presente de grego”

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por Higor Gusmão

Basta Apolo reluzente puxar a carruagem do Sol, cedendo lugar a escuridão intrínseca a Dionísio Zagreu[1], para que se possa ouvir a música e o eco de inumeráveis gritos de prazer, dor e alegria vindos das florestas brumosas em pleno coração do mundo antigo. O povo dos mistérios trágicos, que por sinal é o mesmo que trava e vence a batalha contra os persas, criou para si, no enfrentamento das agruras existências, a arte da tragédia, que, ao exibir a supremacia do destino, ao mesmo tempo mostra a grandeza do herói ao tentar superá-lo. Ora! Quem dentre vós já tenha lido a Odisseia, conto épico do poeta Homero, e nunca sentiu-se um fiel tripulante de Ulisses nos vários desafios que o herói da guerra de Tróia enfrenta ao tentar retornar para casa; quem nunca se consumiu ao ler o “Prometeu Acorrentado” de Ésquilo, ou sofreu junto ao herói Édipo de Sófocles e sua luta constante para não cumprir o destino que lhe cabia. Pois o sentido trágico da existência parece ser a chave para explicar a “imortalidade” entre os helenos. “Nós acreditamos na vida eterna!”, assim exclama a tragédia[2].

Reclamando para si a posição de primeiro filósofo a compreender o fenômeno trágico entre os gregos, no “Nascimento da tragédia” - obra considerada por ele sua primeira transvaloração de todos os valores[3] - Nietzsche volta-se com imaginação e erudição para uma Grécia habitada por deuses dotados de vícios e virtudes humanas, apesar de livres da morte e da corrupção. É na arte da tragédia que o pensador vê se configurar o equilíbrio entre as forças dominantes no ser humano: duas divindades gregas que se opõem e se completam no contínuo desenvolvimento da arte, Dionísio lacerado em oposição à unificação formal de Apolo.

Todavia, qual é precisamente o sentido do “trágico” em Nietzsche? Uma vez que este conceito atravessa toda a sua obra, como um meteoro atravessa o universo, mas que muda de direção de acordo com que o pensador se desvincula de seus antigos influentes, a saber, o filósofo Shopenhauer e o músico Wagner, e se torna aquele filósofo nômade que faz filosofia a golpes de martelo.

Nietzsche contrapõe a perspectiva trágica da vida a duas outras visões: a dialética e a cristã. O “dizer sim!” dionisíaco opõe-se ao “não” da dialética; o jogo de dados heraclitiano ao chicote do silogismo socrático; a leveza da dança à gravidade da dialética. Uma vez que, “a dialética propõe uma certa concepção do trágico; liga o trágico ao negativo, à oposição, à contradição. A contradição do sofrimento e da vida.[4]

Entretanto, com maior reflexão, descobriremos um Nietzsche dialético no “Nascimento da tragédia”. Sim! Apolo é, igualmente, como escreve Nietzsche, o gênio do “principium individuationis[5] (principio da individuação); enquanto que, do outro lado, Dionísio desmembrado, sem órgãos, representa a reconciliação com a natureza. Nesse sentido, se considerarmos o “Eu”, o “Ser”, no limite, como princípio de todos os males e tormentas humana, Dionísio, num primeiro momento, atua como antítese a Apolo, nos libertando das grades da individuação apolínea, por conseguinte, da dor que ela nos causa.

Percebemos aqui que “o Dionísio da Origem da Tragédia ainda ‘resolvia’ a dor; a alegria que ele experimentava ainda era uma alegria de resolvê-la e também de levá-la à unidade primitiva.[6]” Nesta ocasião, Nietzsche esboça muito mais as dores da existência do que propriamente diz sim à vida, como é característico de uma visão trágico do mundo.

Deleuze observa com perspicácia e faro filosófico os vestígios do pessimismo schopenhaueriano que marcam Nietzsche nos primeiros anos de sua produção literária e destaca: “1°) [...] A Origem da Tragédia se desenvolve à sombra destas categorias dialéticas cristãs: justificação, redenção, reconciliação. 2°) A contradição se reflete na oposição de Dionísio e de Apolo.[7]

No “Nascimento da tragédia”, Nietzsche se apresenta contestador do carácter otimista e jubiloso do saber trágico, pelo contrário, ele identifica o otimismo como sendo um atributo especifico da dialética e põe a tragédia como sendo pessimista em sua natureza: 1°) “... Pois quem pode desconhecer o elemento otimista existente na essência da dialética...[8]”. 2°) “... Quero falar apenas da oposição mais ilustre à consideração trágica do mundo, e com isso me refiro à ciência, otimista em sua essência mais profunda...[9]”.

Mas como pode aquele que traz a boa nova sucumbir diante à teia da aranha universal[10]; Nietzsche é aquele filósofo que “diz sim” à vida, aquele pensador que afirma a mais áspera das dores, mais do que isso, aquele que faz da dor um combustível para a vida, ao seu modo: o que não me mata só me deixa mais forte.

E assim, agitado até o cerne pelas mais fortes convulsões do demônio dionisíaco, Nietzsche sofre sua mutação dando lugar ao pensador do eterno retorno e do amor-fati, aquele para quem a vida não se opõe a dor. O trágico então ganha um novo sentido em sua filosofia, desta vez, afirmativo e alegre. Essa transfiguração constata-se no decorrer de suas obras; em “De como a gente se torna o que a gente é”, Nietzsche sentencia: “‘Helenismo e pessimismo’: este seria um título nem um pouco ambíguo: ou seja, a primeira lição a mostrar como os gregos deram conta do pessimismo – com o que eles o superaram... Justo a tragédia é a prova que os gregos não foram pessimistas: Shopenhauer se engana neste, como em todos os outros pontos...[11]”. Filosofando com o martelo profere: “O artista trágico não é pessimista – ele justamente diz sim a tudo aquilo que é questionável e mesmo terrível; ele é dionisíaco...[12]”.

De modo magistral Nietzsche percebe todo o nosso mundo moderno encerrado às malhas da cultura alexandrina, cujo pai antecessor é Sócrates. Obstante a tragédia, Sócrates e o predomínio da razão sobre a vontade ou o instintual, cuja voz interior, seu daimon, coibia ao pensador ateniense a ação em vez de motivá-lo, representam já, para Nietzsche, o abandono da espontaneidade natural e o domínio da razão abstrata. Aqui se sentencia a morte da tragédia. Com Sócrates a vida perde seu caráter afirmativo e passa a ser o objeto que deve ser julgado pela ideia. “Ele não é nem apolíneo nem dionisíaco; ele nega todos os valores estéticos – os únicos valores que o ‘Nascimento da tragédia’ reconhece: ele é, no mais profundo dos sentidos, niilista, ao passo em que no símbolo dionisíaco é alcançada a fronteira mais extrema da afirmação.[13]

Partindo dessa acepção, hoje, torna-se mais do que necessário fazer do corpo, do “eu”, dos órgãos, do pensamento, meios de efetuação da própria potência, combustível dessa eterna luta singular e afirmativa de nós mesmos, em suma – “dizer sim!”, eis o que Nietzsche ansiava ao engendrar o sentido trágico da vida, e o axioma para a transvaloração de todos os valores.

Sim, meus amigos, crede comigo na vida dionisíaca e no renascimento da tragédia. O tempo do homem socrático já passou: coroai-vos de hera, tomai o tirso[14] na mão e não vos admireis se tigres e panteras se deitarem, acariciante, a vossos pés. Agora ousai ser homens trágicos: pois sereis redimidos. Acompanhareis, da Índia a Grécia, a procissão festiva de Dionísio! Armai-vos para uma dura peleja, mas crede nas maravilhas de vosso deus![15].


Referências Bibliográficas
DELEUZE, Gilles. Nietzsche e a filosofia; 1° edição brasileira: tradução de Ruth Joffily Dias e Edmundo Fernandes Dias. – Rio de Janeiro: Editora Rio, 1976.
NIETZSCHE, Friedrich. Crepúsculo dos ídolos, ou, como se filosofa com o martelo; tradução, apresentação e notas de Renato Zwick. – Porto Alegre, RS: L&PM, 2015.
NIETZSCHE, Friedrich. Ecce homo: de como a gente se torna o que a gente é; tradução, organização e notas de Marcelo Backes. – Porto Alegre: L&PM, 2012.
NIETZSCHE, Friedrich. O nascimento da tragédia; tradução, notas e posfácio de J. Guinsburg. – São Paulo: Companhia das Letras, 2007.





[1] “Filho de Zeus e Perséfone, esquartejado e devorado pelos Titãs, mas cujo coração, salvo por Atenas e levado a Zeus, que o engoliu, deu origem ao novo Dionísio Zagreu, filho de Semele.” (nota extraída de O nascimento da tragédia; tradução de J. Guinsburg. – São Paulo: Companhia das Letras, 2007).
[2] O nascimento da tragédia, § 16, p. 99.
[3] Crepúsculo dos ídolos, “O que devo aos antigos”, § 5, p. 136.
[4] Nietzsche e a filosofia, I, “O problema da tragédia”, p. 8.
[5] O nascimento da tragédia, § 21, p. 121.
[6] Nietzsche e a filosofia, I, “Dionísio e Cristo”, p. 10.
[7] Nietzsche e a filosofia, I, “O problema da tragédia”, p. 8.
[8] O nascimento da tragédia, § 14, p. 86-87.
[9] O nascimento da tragédia, § 16, p. 94.
[10] Genealogia da moral, III, § 9, p. 95.
[11] Ecce homo, “O nascimento da tragédia”, § 1, p. 82.
[12] Crepúsculo dos ídolos, “A ‘razão’ na filosofia”, § 6, 3.
[13] Ecce homo, “O nascimento da tragédia”, § 1, p. 83.
[14] Bastão enfeitado com hera e pâmpanos, e rematado em forma de pinha, usado nas festas em tributo a Dionísio.
[15] O nascimento da tragédia, § 20, p. 120-121.
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