Uma vida por vir: para além das grades do juízo

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"Oh, senhor cidadão, eu quero saber, eu quero saber com quantos quilos de medo, com quantos quilos de medo se faz uma tradição?" (Senhor Cidadão, Tom Zé)
A cada vez que circulo pela cidade e me esbarro com um estudante de Direito, vejo que a espessura de seus livros cresceu duas vezes mais. Com dó de seus braços estirados aos limites, os quais revelam o cansaço da tarefa de carregar os avolumados blocos de papel, reparo que o aumento do número de páginas me expõe, em sua mais nítida e assustadora concretude, aos investimentos na direção de judicializar a vida. Eu desejo chamar a atenção, a sua, minha, a de qualquer um, para o fato de que uma vida extrapola as palavras, os papéis, os juízos, os juízes – e, acredite  a nós mesmos.

Aqueles que apreendem a tentativa de regulamentar uma vida jamais conseguirão esgotá-la de seus impreteríveis escapes. O escape é por natureza aquilo que é impossível de se conter. Quem viu algo escapar, só pôde o ver já escapando, em ato. Como num flagrante. Ou então, retrospectivamente. Não pôde prevê-lo, nem contê-lo, pois ele só ganha existência escapulindo. Uma vida, como um plano de pura imanência, para além do bem e do mal, em seus escapes inantecipáveis.

Ao circular pela cidade, em contato com a vida pública em sua plena operação, na dependência do contato com pessoas que não escolhemos, estamos lançados aos imprevistos. Na rua, pode ser que tropecemos, que esbarremos, que sejamos interpelados por alguém. Contudo, o que nos acontece? Como nos sentimos ao exercer a vida pública?

As palavras deste texto berçam na aventura que é morar na cidade do Rio de Janeiro. E nascem, precisamente, daquilo que pude sentir ao viver na “Guanabara”. O medo é certamente um dos sentimentos que experimentei como transeunte, e como acanhado frequentador dos espaços cariocas. Suponho que você também já pôde sentir o sabor desse "medo urbano", que já provou de seu gosto amargo. Talvez seja justamente aí, na malha fina do paladar, do sentir, que encontramos um território significativo a ser explorado. Sentir e pôr em questão o sabor, indagar-se sobre os procedimentos e mecanismos de produção afetiva, pôr em cheque a dimensão de "pré-coisa" da coisa. Equivocar o sentido acostumado do sentimento ao ponto de mergulhar os pés no Rio para sair desse ciclo vicioso. Ao ponto de sentir alguma coisa doce lhe penetrar, e pôr-se sensível às intensidades que cruzam para além e aquém do amargor do medo.

Tal incorporação do plano intensivo de forças na cartografia da subjetividade desafia-nos a entrever, como que por uma vertigem visionária, o compromisso ético-estético-político com a vida.  Precisamos lutar por microfissuras e pela criação de espaços abertos às singularidades. Lutar com intuito de dar a vida uma bossa nova: para além do pau, da pedra e do que parece ser o fim do caminho.
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