Os homens e suas cabeças metafísicas

Uma rápida investigação pela história do pensamento humano e nos daremos conta de que a idade moderna chega trazendo como um dos seus principais panos de fundo a ideia de liberdade, o enredo que embala a revolução francesa, no final do século XVIII, “liberté, egalité et fraternité”, ecoa por todo o Ocidente. Com o horror visceral hobbesiano ao “homem à solta”, configura-se o republicanismo e o moderno Estado democrático de direitos, onde o individuo se submete à sociedade e essa submissão é a condição de sua liberdade. Mas, essa palavra foi tão deturpada, restituída, maculada (por dois mil anos de condescendência clerical, aristocrática e, depois, burguesa), que é melhor tomarmos outras linhas de pensamento e continuar. 

Como bem observou o filósofo Luis Fuganti, "quando queremos formar nossos cidadãos, investimos em assujeitamentos. Eis todo o cinismo da ideia moderna de liberdade". Pois, o homem, até sua última fibra, é inteiramente necessidade e absolutamente “não liberdade” – se por liberdade se entender a exigência extravagante de poder mudar a natureza segundo o próprio capricho, como uma roupa, pretensão que toda filosofia digna desse nome recusou até agora. Sófocles, famoso tragediógrafo grego (século V a.C.), ao relatar a luta do herói Édipo contra o império do destino, deixava claro como é irrisório o esforço humano ao tentar levar uma vida separada do todo. Em outras palavras, somos tão condicionados a agir de modo natural quanto a um leopardo. 

Entretanto, os homens e suas cabeças metafísicas, segundo James Frazer, influente antropólogo nos primeiros estágios dos estudos modernos de mitologia e religião comparada, confundiram a ordem de suas ideias com a ordem da natureza, e por isso imaginaram que o controle que tem, ou parecem ter, sobre seus pensamentos lhes permitia exercer um controle correspondente sobre as coisas; o homem projeta sobre o mundo um esquema explicativo que ele conhece a partir da sua própria causalidade, para dominar as forças da natureza a seu favor. 

Contudo, as instâncias modernas, geradoras de segurança e igualdade, realmente estão investindo na liberdade do homem, nas forças ativas do homem – únicas capazes de garantir tal pretensão, ou, apenas, estão investindo nessa “subjetivação assujeitada”, que nos autoriza a ser tiranos em nome da democracia?
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