Vitia et virtú

Sem fazer uso exato dessas palavras, Sêneca (em Da tranquilidade da alma) nos fala o quão são inumeráveis as propriedades do vício, mas que o seu efeito é um só: o aborrecer-se consigo mesmo. A inércia não desejada alimenta a inveja, ambiciona a ruína de todos, porque não conseguiu atingir o seu próprio êxito. O entorpecimento obtido por vias químicas nos tolhe a capacidade de ação, atividade sem a qual perdemos o acesso com a superfície do acontecimento. Assim como a prática do ideal ascético - essa vontade de nada -, que torna o homem adoecido, docilizado, como diz Nietzsche: um animal de rebanho, miserabilizado ao ponto de fazer da própria vida tornada fraca um lenitivo para suas dores. Ah! A vida tornou-se demasiada genérica, visto que nos jogamos fora a cada instante, que assim que surge tempo para não fazermos nada nos entorpecemos. Seja com algo que nos faça dormir, aliás, adoramos nos desligar da realidade, ou com amor e ódio, que também são formas de se entorpecer. Contudo, realidade e perfeição são palavras sinônimas em Spinoza. Para o filósofo, apenas a constituição daquilo que ele chama de ciclo virtuoso do pensamento pode tornar a vida potente o bastante a fim de escapar do regime vicioso de signos. Se mudarmos o pensamento, os valores e as relações com o mundo, inevitavelmente, se transformarão. Ao contrário do que pensava Aristóteles, o pensamento não é algo que se da de modo natural, mas ele é forçado, uma necessidade humana. Somos violentados a pensar. Portanto, ver diferente do que se vê, pensar diferente do que se pensa ou do que se pensou são ações que caracterizam as virtudes do pensar. Sem pensamento não há liberdade, valha-me Spinoza, sem liberdade só há vício e superstição.
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